Final de 2025 e início de 2026 marcados por período excecionalmente chuvoso em Portugal continental


Os útlimos 4 meses entram para um dos períodos mais chuvosos desde 1931, com este fevereiro a tornar-se o mais chuvoso em 47 anos


Entre 01 novembro de 2025 e o final de fevereiro de 2026, Portugal continental registou um dos períodos mais chuvosos das últimas décadas. De acordo com os dados disponíveis, este foi o 6.º período mais chuvoso desde 1931 e o mais chuvoso dos útltimos 30 anos, com valores de precipitação acima da média em todo o território.

O ano hidrológico 2025/2026, iniciado a 1 de outubro, destaca-se igualmente como um dos mais chuvosos dos últimos 30 anos. Até ao momento, é o mais chuvoso desde 1996, com valores acumulados que atingem entre cerca de 2 vezes o valor normal na maioria das bacias hidrográficas. Em várias regiões, a precipitação registada já se aproxima, ou mesmo iguala, o total médio anual esperado.

Este cenário resultou da predominância de uma circulação atmosférica de oeste, responsável pelo transporte intenso e persistente de humidade proveniente do Atlântico (Figura 1). Este padrão favoreceu episódios frequentes de precipitação, contribuindo para um aumento significativo dos volumes armazenados nas principais bacias hidrográficas do país.

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Figura 1. Anomalias (1991-2020) sobre a região Euro-Atlântica, dos seguintes campos, no período de 01 de novembro de 2025 a 06 de fevereiro de 2026: pressão média ao nível médio do mar, transporte integrado de vapor de água (IVT) e precipitação total. Fonte ERA5/Copernicus Climate Change Service - C3S.



Janeiro foi o 2.º mais chuvoso do século



O mês de janeiro de 2026 destacou-se de forma particular, com um total de precipitação cerca do dobro da média mensal. Classificou-se como o 2.º janeiro mais chuvoso desde 2000 e o 14.º mais chuvoso desde 1931. Todas as estações meteorológicas registaram valores superiores ao normal. Em grande parte do território, a precipitação variou entre 150% e 300% da média climatológica, atingindo localmente valores ainda mais elevados.

Todos os concelhos apresentaram valores de água no solo acima da capacidade de campo (>100%), com concelhos do interior Norte, região Centro e litoral Sul, muito próximos da saturação total do solo.

O resumo preliminar da análise do IPMA relativo a janeiro de 2026 encontra-se disponível no respetivo relatório mensal.

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Figura 2. Estrada submersa em Serpa, Beja. Crédito da Fotografia: José Sena Goulão/Agência Lusa.



Fevereiro foi o mais chuvoso dos últimos 47 anos, colocando o hidrológico 2025/26 a superar o de 2000/01

Bastaram 15 dias de precipitação intensa para que se fevereiro se tornasse o mais chuvoso dos últimos 47 anos. O mês terminou sendo o 5º mais chuvoso desde 1931, com um total acumulado de 241,7 mm (329% do normal, ou seja, mais de 3 vezes superior ao valor médio de referência 1991-2020).

Grande parte do território registou valores entre 300% e 400% (3 a 4 vezes) do valor normal 1991-2020, sendo mesmo superior a 500% (ou seja, cinco vezes) nas localidades de Mora, Barreiro (Lavradio) e Alvalade do Sado.

O acumulado desde 1 de outubro de 2025 (início do ano hidrológico) até 28 de fevereiro de 2026 é de 924.0 mm, correspondendo a 1.8 vezes o valor médio e superando o ano hidrológico de 2000/01, até agora referência dos últimos 25 anos. Para encontrar um ano hidrológico idêntico em relação à quantidade de precipitação, teríamos de recuar a 1996 (há 30 anos).

Todos os concelhos apresentavam, no final do mês, valores de água no solo entre 60% e 100%. Nas regiões Norte, interior Centro e alguns municípios do interior do alto Alentejo encontram-se nos níveis de saturação do solo. No nordeste transmontano, o solo encontra-se perto da sobressaturação.


Mas porque tem estado a chover tanto?


O papel da corrente de jato no padrão meteorológico atual

O comportamento atual da corrente de jato (ou jet stream) é o principal responsável pelo padrão meteorológico que atualmente influencia o nosso país. Esta poderosa faixa de ar, que circula na alta troposfera (~9-10km de altitude), tem estado frequentemente mais intensa e posicionada mais a sul do que é habitual para esta época do ano. Uma corrente de jato mais forte funciona como uma espécie de tapete rolante, promovendo o rápido desenvolvimento e transporte de áreas de baixa pressão em direção ao noroeste e ao sudoeste da Europa. Assim, quando esta se desloca para sul sobre o Atlântico, tende a canalizar sistemas de baixa pressão diretamente para a Europa Ocidental, principalmente para o sul do Reino Unido e para a Península Ibérica, aumentando a frequência e a intensidade das frentes associadas a muita precipitação e vento forte.

Durante este inverno, várias incursões de ar friopolar sobre a América do Norte ajudaram a intensificar a corrente de jato. À medida que esse ar, frio e denso se desloca para sul, reforça o contraste de temperatura com massas de ar mais quente subtropicais: este é um dos principais fatores que alimenta a corrente de jato.

Uma corrente de jato mais forte funciona como uma espécie de tapete rolante, promovendo o rápido desenvolvimento e transporte de áreas de baixa pressão em direção ao noroeste e ao sudoeste da Europa.

Ao mesmo tempo, estabeleceu-se também um anticiclone sobre partes do norte da Europa. Esta situação criou um padrão de “bloqueio”, impedindo a ocorrência de alterações significativas na posição da corrente de jato, e limitando a probabilidade de condições mais estáveis e secas. Este anticiclone de bloqueio também impediu que os sistemas frontais atravessassem e se dissipassem sobre as ilahs ilhas Britânicas e Europa do Norte. Em vez disso, estas ficaram praticamente estacionárias, originando bandas persistentes e lentas de precipitação (ver esquema simplificado na Figura 3).


Anticiclone dos Açores deslocado para sul favoreceu “comboio de depressões”

No mesmo sentido, o Anticiclone dos Açores permaneceu em latitudes mais baixas do que é habitual, situando-se, em média, sobre a latitude das ilhas Canárias. Com isto, entre a região de Marrocos e as ilhas Britâncias, passando pela Península Ibérica, existiu, durante muitas semans seguidas, uma faixa "livre" de anticiclones que, aliada a uma corrente de jato forte e com muito potencial para formar depressões, permitiu a passagem frequente e persistente de tempestades sobre a Europa Ocidental, com particular impacto na Península Ibérica e no Norte de África.

Para além disso, o posicionamento do Anticiclone dos Açores mais a sul favoreceu o transporte de humidade, em direção à Península Ibérica, proveniente do Atlântico subtropical e das regiões equatoriais, por meio dos denominados rios atmosféricos - fluxos com muito conteúdo em vapor de água que ocorrem nos níveis médio e altos da atmosfera. A ocorrência de rios atmsoféricos estiveram associados a episódios de precipitação extrema em toda a região do sudoeste europeu.

Desta froma, em Portugal continental, após um início de janeiro marcado pelas depressões Francis, Goretti, Ingrid e Joseph, a tempestade Kristin destacou-se pela sua intensidade. Esta depressão sofreu uma intensificação muito rápida - um fenómeno conhecido como ciclogénese explosiva - deixando um rasto de destruição em várias regiões. Registou-se ainda a formação de um sting jet, com rajadas superiores a 150 km/h, particularmente nas regiões de Leiria e Coimbra.

Posteriormente, já em fevereiro, as depressões Leonardo, Marta, Nils e Oriana continuaram a contribuir, direta ou indiretamente, para valores de precipitação muito acima do normal para a época. A conjugação de precipitação persistente com solos já sobressaturados resultou em cheias, inundações e deslizamentos de terra em várias zonas do país.


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Figura 3. Esquema simplificado dos sistemas meteorológicos que têm estado a influênciar a circulação atmosférica no Atlântico Norte. As depressões (ou tempestades) estão marcados com um "B".