Qual a influência do índice ENSO em Portugal continental?


O mais correto e cientificamente consensual é afirmar que, em Portugal, a influência do El-Niño é indireta e pouco significativa, quando comparada com outras regiões do planeta, como a América do Sul ou a Austrália (i.e., a faixa equatorial do planeta).

No entanto, alguns estudos revelam que, a existir, o principal mecanismo de ligação entre o índice ENSO e o clima europeu será através da Oscilação do Atlântico Norte (NAO), que por sua vez condiciona os indicadores climáticos relacionados com a precipitação e com a temperatura do ar na região da Península Ibérica, principalmente durante o início ou no fim do inverno do Hemisfério Norte.

A literatura mais recente (veja-se, por exemplo, Hobeichi et al. 2024, ver artigo), aponta para que seja a NAO o principal modo de variabilidade que explica as variações de precipitação no inverno do hemisfério Norte. Já ao índice ENSO, é atribuido um baixo impacto no final do verão e outono do hemisfério Norte.


Quais os impactos do índice ENSO na previsão sazonal para Portugal continental?

Em estudos mais recentes, publicados em revistas internacionais de grande relevância para a climatologia, demonstram que a influência do ENSO no clima europeu pode efetivamente existir, mas apresenta elevados níveis de incerteza, não-linearidade e fraca significância estatística, dependendo muito da época do ano em que se inserem. A existir influência, essa é refletida conjuntamente com a variabilidade natural do Atlântico Norte, medida pelo índice de Oscilação do Atlântico Norte (NAO).

Fernández-Castillo et al. (2025) mostraram que a intensidade e os mecanismos desta ligação ENSO-Europa variam significativamente entre décadas, dificultando bastante a predictabilidade dessa influência. Adicionalmente, existe alguma evidência recente de que as alterações climáticas poderão modificar ou mesmo reforçar a ligação entre o ENSO e o setor Euro-Atlântico no futuro. De qualquer modo, a ocorrência e eventual fortalecimento destas ligações (denominadas teleconexões) carecem de estudos científicos mais aprofundados, não sendo trivial afirmar a sua existência.

Em conjunto, estes resultados indicam que o ENSO não constitui um preditor robusto da variabilidade climática no setor Euro-Atlântico, sendo os seus impactos fracos, intermitentes, pouco significativos e fortemente dependentes da interação com outros modos de variabilidade climática (Fernández-Castillo et al. (2025) ; Robles-Fernández et al., 2026; Geng et al., 2024).


Classificação do ENSO no período 2015-2025

Nos últimos 10 anos, os extremos em Portugal Continental parecem estar mais ligados ao aquecimento da atmosfera e à circulação na região Euroatlântica do que diretamente ao índice ENSO.

Podemos ver, na Tabela 1, as associações, em cada ano, entre as fases do índice ENSO e as classificações climatológicas anuais realizadas pelo IPMA, desde 2015:

Tabela_ENSO_Ano_Portugal


Análise observacional no período 1990-2025

A classificação ENSO pode ser feita com o Relative Oceanic Niño Index da NOAA (RONI4.3), usando limiares de ± 0.5 °C para episódios El-Niño/La-Niña. Normalmente, episódios de “forte” El-Niño/La-Niña utilizam os limiares de ±1.0 °C. Episódios com valores superiores a ± 2.0 °C são classificados como “muito fortes” ou, na gíria comum, “super” eventos. O RONI é um índice recente de medição do fenómeno ENSO, tendo sido retirada a tendência devido aos efetios inerentes do aquecimento global. Para saber mais sobre o porquê da implementação do Relative Niño index (RONI). O índice RONI aqui utilizado refere-se è região Niño3.4 (ver Figura 2 de Atualização El-Niño 2026).

No gráfico seguinte (Figura 1), verifica-se a forma como o índice ENSO se correlaciona com as variáveis de Temperatura média à superfície e Precipitação em Portugal continental, para cada mês do ano. Consegue compreender-se que a correlação do índice ENSO com qualquer uma das variáveis é praticamente inexistente, não se podendo afirmar que o fenómeno El-Niño (ou índice ENSO) esteja relacionado com padrões específicos de temperatura e precipitação em Portugal Continental.

Para uma análise mais detalhada, consultar o documento disponível em: El-Niño 2026 atualização

ENSO_Temp_Prec_Comapracao_Portugal

Figura 1. Nesta Figura são apresentados 3 painéis com variáveis desde 1980 até 2025. No painel de cima, podemos ver a evolução do índice RONI3.4 (similar ao Niño3.4, permitindo identificar períodos de El-Niño ou La-Niña), onde se marca com linhas vermelhas o limiar de classificação de El-Niño forte (>1.0 °C de anomalia) e muito forte (>2.0 °C de anomalia). O mesmo é feito para eventos de La-Niña. No painel central (a meio), são apresentados os valores médios de anomalia mensal de temperatura do ar à superfície, em Portugal continental. No painel inferior, são apresentados os valores médios de anomalia de precipitação total mensal, em Portugal continental. O sombreado vermelho identifica períodos de El-Niño (RONI3.4 > 1.0 °C) e o sombreado azul, períodos de La-Niña (RONI3.4 < -1.0 °C).

No entanto, terá o fenómeno ENSO uma influência tardia no clima de Portugal continental?

Aparentemente, a resposta é não. De facto, ao correlacionarmos o índice ENSO com o que foi observado, alguns meses mais tarde, em termos de temperatura e precipitação em Portugal continental, não se encontram correlações superiores a 0.30, tal como podemos verificar pelas Figuras 2 e 3. Deste modo, compreende-se que as correlações, mesmo desfazadas, entre o índice ENSO e a percentagem de precipitação são, efetivamente, fracas ou praticamente inexistentes. No entanto, note-se que os valores de correlação aumentam ligeiramente em alguns meses do ano (principalmente no outono), quando realizamos uma análise desfazada entre o índice ENSO e os valores observados 2 a 4 meses mais tarde.

Lagged-corr_ENSO_%prec_Portugal_1950_2025_legendas

Figura 3. Gráfico de correlação entre o índice ENSO (eixo dos yy) e os valores de percentagem de precipitação observado meses mais tarde em portugal continental (desfazamento; eixo dos xx). Gráfico elaborado com dados entre 1950 e 2025 e com uma normal climatológica de referência 1991-2020.


Lagged-corr_ENSO_anomT_Portugal_1950_2025

Figura 4. Similar à Figura 3, mas para a anomalia da temperatura média do ar.


Conceitos a reter

ENSO

O El Niño-Southern Oscillation (ENSO) é um padrão climático natural que envolve interações diretas entre o oceano e a atmosfera no Oceano Pacífico tropical. Alterna entre fases mais quentes (El Niño), mais frias (La Niña) e neutras, influenciando precipitação, temperatura e circulação atmosférica em algumas partes do Globo, principalmente na faixa tropical/equatorial. É uma das fontes mais importantes de variabilidade climática de ano para ano.

El Niño

Fase positiva do ENSO. É um fenómeno climático caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial Central e Oriental, alterando a circulação atmosférica global e os padrões de temperatura e precipitação. Anos de El-Niño normalmente são mais quentes, globalmente, do que anos de La-Niña.

La Niña

Fase negativa do ENSO. É um fenómeno climático caracterizado pelo arrefecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial Central e Oriental, produzindo efeitos geralmente opostos aos do El Niño.

Na Figura 5 podemos verificar quais os principais efeitos e impactos do fenómeno El-Niño (fase positiva do ENSO) na precipitação e temperatura no globo. É importante notar que estes impactos são os mais esperados tendo em conta estudos climatológicos referentes a episódios passados, não significando que serão impactos certos nos próximos meses.


rainfall_enso

Figura 5. Padrões de precipitação esperados, em todo o globo, em anos de El-Niño. Fonte da imagem: IRI/NOAA; https://www.climate.gov/media/4663